Toxicodependência e ressocialização com adultos: O caso Reconstruir

Autor:Alcínia Noutel
Páginas:99-115
 
ÍNDICE
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1. Introdução

De entre os múltiplos desafios que se vêm impondo na sociedade em geral afigura-se, como objecto de reflexão pertinente, coerente e actual, a gravidade que reveste a toxicodependência. Tal fenómeno alastra-se cada vez com mais intensi-dade, assumindo, por isso, dimensões preocupantes nestes tempos de pós-modernidade. Com efeito, a sua crescente magnitude manifesta-se em vários níveis: económico, social, cultural, educacional e na saúde, fragilizando não só o indivíduo, como também a sociedade em geral. Sublinhamos, a propósito, o problema do narcotráfico, o branqueamento de dinheiro e consequente conflitualidade que gera nos locais onde a droga é vendida. Tal provoca graves transtornos nas famílias que se vêm, muitas vezes, despojadas dos seus bens e dos seus filhos/familiares. E disso exemplo os casos de overdose. A educação de adultos e animação comunitária, pelas suas características, sente-se naturalmente convocada para se debruçar sobre este campo socioeducativo e cultural, no intuito de conhecer factores de risco e proteção, conceber e de participar em programas, tendo em vista colmatar os efeitos nefastos deste fenómeno. Como objectivos nucleares que nortearam a pesquisa enunciamos os seguintes:
• Identificar fatores de risco e de proteção;
• Conhecer e interpretar as representações sociais em torno da problemática escolhida;

• Conhecer o processo de acolhimento e critérios na escolha das terapias ajustadas aos utentes;

• Conhecer estratégias e parcerias com empresas locais e instituições, visando a inserção no contexto laboral e resultados obtidos.

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Neste registo, o presente estudo pretender analisar os fatores de risco e de proteção, assim como conhecer as representações sociais que se desenvolvem em torno dos indivíduos em situação de toxicodependência e ainda registar experiências de sucesso.

2. Revisão da literatura

É comummente aceite que o uso ilícito de drogas tem vindo a ser intensificado a um ritmo bastante acelerado constituindo, por isso, um mal-estar social pelos múltiplos efeitos nefastos que produz. Admitimos a existência de vários fatores que proporcionam o consumo de drogas. Entre eles, ausência de tradição sobre informação e programas formação no seio das famílias e comunidades sobre a toxicodependência ee seus contornos. A propósito, a problemática da inclusão é, por si, quase marginalizada por representações sociais e pelo próprio sistema educativo. Sobre a matéria, acompanhamos Yus (2001) sobre extrema importância que assume a sensibilização para a criação de programas de educação para a convivência, educação para a saúde, oficinas de trabalho sobre atividades artesanais, artísticas e culturais (teatro, música, jardinagem, entre outras), ajustadas às características socioculturais das comunidades e sensibilizando para o sentido de pertença aos valores construídos na comunidade. Neste entendimento, será igualmente de privilegiar dimensões da educação holística (Yus, 2001), valorizando assim a tomada de consciência do Eu, da alteridade e seus efeitos multiplicadores na personalidade do individuo. Será, pois de promover a aquisição de níveis de responsabilidade pelo outro e por si e, em consequência, a autoconsciência, a liberdade na sua essência e o dever.

No âmbito da abordagem do tema, considerámos teorias e modelos que tendem a explicar fatores que favorecem o consumo de drogas e fatores que inibem o mesmo. Neste registo, Becoña (2002) aponta-nos os três grupos de teorias e modelos:

Grupo 1: Contemplam modelos biológicos, nos quais se relacionam condições de saúde e desenvolvimento de competências, teorias de aprendizagem e comportamento e outras;

Grupo 2: Teorias de estado ou evolutivas de Kandel (1996) e modelos de etapas motivacionais de Prochaska, DiClemente e Norcross (1994);

Grupo 3: Contemplam as teorias integrativas e compreensivas, assim como o modelo de promoção da saúde, teoria da aprendizagem social, teoria cognitiva social sustentada por Bandura (1984) e teoria do comportamento problemático postulada por Jessor e Jessor (1977).

Dada a natureza da nossa pesquisa, a de procurar encontrar explicações sobre consumo e evitação de drogas, teremos em conta o exposto mas aprofundaremos este último grupo, por atender aos fatores que integram variáveis diferentes para a compreensão do nosso objecto de estudo. Com efeito, no modelo do desenvolvimento social criado por Hawking, Catalano e Miller (1992) detetamos a pertinência de intervenções que visem, por um lado, diagnosticar e reduzir os fatores de risco e, por outro, desenvolver estratégias com vista ao desenvolvimento de fatores de proteção no indivíduo e na comunidade (Hawking, Catalano e Artur (2002).

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Tal postulado está de acordo como um propósito: tratar, motivar para ressocializar. Sobre o modelo, após revisões no plano teórico e empírico, Becoña (1999 e 2002) alerta para uma série de implicações as quais, pela sua pertinência, registámos: 1) poderá surgir a necessidade de adotar vários tipos de intervenção consoante o a complexidade dos casos, pois, os percursos dos indivíduos toxicodependentes são diferenciados; 2) o modelo de desenvolvimento social atribui bastante importância a episódios vividos no processo de socialização e natureza dos contextos; 3) os procedimentos a considerar na intervenção devem ser estudados e aplicados de forma a promover a mudança de atitudes (de «fechado em si» a gostar de interagir com outros, aceitar-se); 4) devem ser considerados, tão cedo quanto possível, fatores como idade, recidivas, história pessoal, incussessos profissionais e outros, para ajudar a construir autoestima, autoconfiança, valização do eu, família e outras atitudes de proteção no consumo da droga.

2.1. Fatores de risco: de que falamos?

A toxicodependência emerge de uma série de variáveis que precipitam a sua necessidade. Inspiramo-nos em Clayton (1992) em busca de uma definição: trata-se de uma caraterística, individual, situação, contexto familiar ou ambiental que estimula o indivíduo ao consumo de drogas. Uma das características é o carácter compulsivo na busca de meios para a aquisição e uso de estupefacientes. As consequências do consumo marcam níveis de dependência biológica e neuronal, psicológica e social, por vezes irreversíveis. Entretanto Calafat (1999) e Calafat et al (2005) sustentam que a primeira experiência sobre consumo de droga pode desenvolver habituação ou não, consoante o contexto afetivo e social que envolve o indivíduo. O conhecimento dos fatores de risco permite o desenho de estratégias para a evitação do consumo de substâncias tóxicas. Sobre aqueles existem várias pesquisas. Acompanhamos Hawking, Catalano e Miller (1992) na exposição que nos oferecem (Fig. 1):

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De sublinhar que estes fatores deverão ser considerados por relação a variáveis (idade, género; percurso familiar, escolar, inserção no mercado de trabalho, transferência de localidades, disponibilidade económica, etc). Ainda não podemos esquecer a influência que as novas tecnologias oferecem (filmes, videojogos), instigando indivíduos e grupos à exploração e consumo de novos estupefacientes.

Seguindo os autores supracitados, os programas de prevenção (proteção) têm, como objectivo, a diminuição ou eliminação dos fatores de risco. Considera-se fundamental a aquisição de um conhecimento aprofundado da situação dos iniciados, através da definição de critérios ajustados numa fase de diagnóstico, acompanhamento e avaliação, diagnóstico, bem como a utilização de instrumentos eficazes, permitindo adequar a intervenção às necessidades e características dos indivíduos.

Quais os fatores de proteção? Expomos alguns deles na Figura 2.

As experiências vivenciadas em grupo/comunidade permitem estabelecer redes motivacionais, reforços positivos, enfim uma progressiva modelação comporta-mental (Holland e Skinner, 1975; Moreira e Medeiros; 2007; Wilkenfield et al, 1992). A repetição de acções/atividades promove a aquisição de novas rotinas que ajudam o indivíduo a ir desvalorizando o prazer que encontrava na droga. Com efeito, a partilha de experiências em grupo como terapia, permite reforços favoráveis à aceitação de fracassos, sendo estes tomados num registo positivo — como desafios que vão superar. O experienciar de pequenos sucessos é já superação, assume um caracter reforçador num quadro de mudança de atitudes. É por isso, um factor de proteção. Que entendemos por experiências de sucesso?
• A descoberta do seu valor como pessoa (consciência de si) constitui em si, um fator de extrema importância, i.e. o reconhecimento da sua dignidade.
• A aceitação do seu passado como a condição para a ressocialização e seus reflexos.

• Aceitação da família, cultivar novas atitudes e valores junto daquela.
• Assumir compromissos de natureza profissional.

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• Participar de modo responsável e proativo na comunidade onde está inserido.

As experiências de sucesso decorrem de um conjunto factores interiorizados, assimilados e que por tal, vão permitindo a construção de defesas. É aceite que processo complexo de mudança implícita nas diferentes fases de tratamento constitui-se num desafio cujas dimensões são sentidas quer pelos indivíduos, quer por todos os envolvidos nas casas de acolhimento. São de interesse o desenvolvimento e aplicação de atividades de natureza múltipla e, a título de exemplo, enunciamos:
• Debates sobre temas culturais;
• Comentar filmes;
• Jardinagem; agricultura biológica;
• Serralharia, cerâmica, pintura, cestaria;
•...

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